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Cruzeiro e a banalização da ruindade

Uma informação de bastidores, e uma reflexão...

10/01/2020 às 04:56
Cruzeiro e a banalização da ruindade

Um dos pontos mais icônicos da magnífica obra de Hannah Arendt passa pelo que convencionou-se a chamar de “banalidade do mal”. Por meio deste conceito, grosso modo – a riqueza de detalhes por trás dele se mostra intraduzível nesta coluna –, a filósofa alemã nos mostrou como os humanos são capazes de cometer os mais bárbaros atos por uma espécie de inércia, de automatismo, de burocratização – e não necessariamente movidos por instintos malignos de maneiras tão diretas, palpáveis; por um âmago próprio tão doentio nos termos que vários presumiriam. 

No futebol, na política, no jornalismo da atualidade, eticamente, muitas vezes também é assim. Determinadas condutas desprezíveis são tão orgânicas, entranhadas nestes respectivos meios, que elas chegam a se solidificar sem que ninguém perceba, sem que as pessoas sequer apreendam os conflitos de interesses, as falhas por trás destes atos.

Raciocínio análogo caberia para a inépcia, a mera incompetência. A simples falta de capacidade intelectual. Para quem conhece os meandros internos do esporte bretão, torna-se extremamente comum a percepção de que vários ocupantes dos mais importantes cargos, sem saber nada do riscado, simplesmente se não atrapalharem, já estão contribuindo muito. E isso costuma fluir, ser engolido por pares destas próprias pessoas com uma naturalidade chocante – talvez porque elas padecem do mesmo defeito citado...

Apurando com algumas fontes do clube quando o Cruzeiro estava bem, durante a gestão Wagner Pires de Sá, ouvi com muita frequência discursos que iam nessa direção, confirmavam este padrão. Comentava com interlocutores: “mas o presidente não sabe nem onde ele está, né?! Não saca nada de bola, não consegue se expressar infimamente, não desnuda credenciais para compreender nuances dos negócios do esporte”. A resposta que recebia em seguida, ao contrário do que muitos imaginariam, nunca era uma negação, uma defesa propriamente dita. A réplica ancorava-se na crença de que ao menos ele não atrapalharia, permaneceria um tanto alheio, inofensivo; de que os funcionários gostavam dele, e de que, no fundo, considerando que no futebol são incontáveis os metidos a sabichões que de nada manjam, um tipo de resignação tácita, aliada ao distanciamento das decisões do suposto Mandachuva, seriam até mais benéficos à instituição do que um centralizador talvez menos caricato no seu despreparo, provido de ao menos alguns disfarces. 

Nem precisa dizer que nada disso deu certo no Cruzeiro, entre outras coisas, por dois motivos: a ruindade de Wagner não ficou tão escondida como alguns imaginavam; não houve apenas omissão; existiram também ações claramente ruins. Em segundo lugar, prejudicou o fato de que quem mandava mais, quem botava a mão na massa, Itair Machado, executava as mais variadas bobagens e irresponsabilidades. Em outros termos: se Wagner era uma Rainha da Inglaterra incompetente, delegou para um Primeiro Ministro também bastante atrapalhado. 

Noves fora as questões ligadas ao caso específico da Raposa, fica o relato acerca de certo modus operandi comum no futebol: a naturalização da ruindade é mais espalhada e automaticamente aceita do que se imagina. O “se não atrapalhar já está bom”, deplorável por si mesmo, pelo óbvio nivelamento por baixo, uma epidemia – que para piorar, raramente ataca sozinha; o suspeito da vez, quase sempre, acaba prejudicando também “concretamente” – e não somente pelo alheamento.

Foto: Vinnícius Silva/Cruzeiro

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