Eduardo Costa

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As mangas consolam

Para aguentar tempos tão bicudos, só mesmo chupando manga madura, molhada e debaixo do pé.

05/11/2018 às 03:27

Cheguei à rádio raciocinando sobre a linha de partida para o comentário a respeito dos três anos da tragédia da Samarco, em Mariana. Na escada que separa o estacionamento do local de trabalho reparei os pés de mangas, verdes e felizes como nunca, repletos de frutas... uma delas me chamou a atenção e mudou o rumo da prosa...

Aquela manga da manhã cinzenta de segunda era – e é porque está lá – absolutamente igual às que admirava, capturava e chupava nas tardes de Inácia de Carvalho quando, cumprida a missão de ir à aula e mais alguma tarefa como tratar dos porcos, era permitido filosofar debaixo do pé de manga. Agora, 50 e muitos anos depois, pensava cá com meus botões por que a gente não repara que a vida vai ficar árida, sem graça se os pés de fruta desaparecerem de vez de nossos quintais. Afinal, sabemos que na maioria das residências de cidades grandes como Belo Horizonte já sumiram, dando lugar a prédios, garagens e gambiarras, travestidas de anexos, cimentados, asfaltados, asfixiados.

Pior do que a tragédia em si é a falta de providências para evitar a repetição. A lama correu mil quilômetros, devastando povoados, sujando 100 afluentes do Rio Doce e foi estragar o mar... acidente que, segundo peritos e policiais, poderia ter sido evitado. Sequer se preocuparam em instalar uma sirene, que teria diminuído o número de 19 mortos. Papai do céu fez o que era possível, determinando a ocorrência no meio da tarde, pois, se fosse à noite...

As questões civis estão sendo tratadas por uma fundação, que merece meu respeito. Sinto falta é de sinais claros de que não vamos ter uma nova Barragem de Fundão. O governo do Estado não mudou práticas e rotinas, não incrementou a fiscalização. Um projeto, construído a muitas mãos, pela Assembleia, o Ministério Público e entidades ambientais foi arquivado e fim de papo. 

Outro lamento: ninguém foi preso até hoje. Como não prenderam os responsáveis pela queda do viaduto na Pedro I, dois anos atrás; os que contribuíram para 36 mortes na Barraginha, em Contagem, com 36 mortos, em 1992; Ah, também ninguém foi preso até hoje pela morte de dezenas de operários na Gameleira, em 1971...

Para aguentar tempos tão bicudos, só mesmo chupando manga madura, molhada e debaixo do pé. Ô saudade daqueles tempos de inocência!

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